É gratificante demais! Preciso dividir a crítica recebida pelo espetáculo.
O VÔO DA BORBOLETA
Crítica de Dr. Edélcio Mostaço (dramaturgo e professor)
“Borboletas de Sol de Asas Magoadas” possui uma generosa ambição: trazer para a cena alguns aspectos da vida ambígua, reticente e desconhecida do travesti. Se outras variantes de homossexualidade já conhecem alguma discussão em nossa sociedade, o travesti ainda permanece, a despeito das paradas GLBT, um território onde incide pouca luz.
A atriz gaúcha Evelyn Ligocki, auxiliada por Celina Alcântara, decidiu enfrentar esse desafio, arquitetando um espetáculo intimista e desvelador. Como se recebesse o público em sua casa, ela pode partilhar de alguns segredos que organizam o dia a dia daquelas figuras e, simultaneamente, explorar aspectos de seu mundo interior. Partindo de entrevistas, depoimentos e material recolhido em arquivos, Evelyn conseguiu imprimir a seu espetáculo alto grau de verismo, em grande momento de interpretação artística.
Seu trabalho transita entre procedimentos da performance e do realismo. Improvisando o quanto necessário, ela constrói com habilidade toda a ambientação da primeira parte do espetáculo, mediando entre a auto-ironia e o exibicionismo aspectos, digamos, “formais”. Em seguida, a partir da cena de rua, o foco se reverte e aspectos amargos e dolorosos ganham terreno, dando a conhecer facetas pouco divulgadas, digamos, das coxias, da vida reclusa daquelas criaturas.
O travesti é um ser existencialmente teatral, fake por natureza e medularmente perpassado em ilusão. Não à toa, a expressão truque parece resumir e condensar esse mundo ambíguo, inteiramente construído por intermédio de expedientes projetivos. Isso nunca tinha antes me ocorrido, até ver esse espetáculo. O travesti passa sua vida treinando parecer uma mulher, substituindo a espontaneidade por seqüências ensaiadas de gestos e atitudes. Cada um cria seu estilo, seu tipo e acredita encarnar alguma diva do presente ou do passado. A dublagem, enfim, não apenas é a sua expressão estética mais decisiva, como supra-sumo projetivo de reconciliação para com sua ambivalente psique.
Esse conjunto de aspectos é trazido à cena pelas mãos de Evelyn Ligocki com elogiável desenvoltura, terminando a apresentação com o batom espalhado pela cara e o rímel escorrendo em lágrimas, desfazendo o carão – a máscara tão meticulosamente construída antes de sair às ruas. Comovente, a apresentação desperta viva adesão do público. Evidência de que alcançou seus intentos, instaurando, através do rito teatral, uma empatia indispensável a preparar o caminho da aceitação menos constrangida da diferença sexual. Podendo ser considerado um teatro de militância – no mais amplo e generoso sentido do termo – estamos diante de uma realização inteiramente lograda.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
O VÔO DA BORBOLETA
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